Ela é doméstica
Levanta bem cedinho.
Ainda a escuridão não se desfez.
Os galos recém cantaram…
Mas, na cidade não se ouve os seus cantos
– Ela levanta ao som de aviso
De um rádio despertador que, também canta
as melodias em estrangeiro,
na lingua que ela nem entende
– A lingua que todos chamam de inglês.
E ela nem estranha. Até parece em português.
No fim das contas, tanto faz…
E tudo o que importa, é pegar a muchila
Descer correndo as escadas,
Tomar cuidado p’ra não tropeçar
– Ela não pode ao serviço atrasar
Seria um segundo atraso dentro do mes.
Doméstica a sua atividade.
Dá-lhe sustento e, da sua família,
ressalta o caráter digno e a honradez.
O companheiro seu, desempregado.
Por força do destino ou por falta de preparo
Atividade nova não encontra mais.
Idade avançada — já passa dos quarenta.
Na sua juventude, perambulava pelos bares.
Enquanto os anos se passavam,
Com os “amigos” — nem tanto verdadeiros,
As tardes e as noites consumidas se esgotavam.
Um dia conheceu u’a jovem bela, que lhe sorriu.
Enamorados, em poucos dias, se casaram.
Deus proverá o dia-a-dia. Assim pensaram!
Num cômodo, de um apartamento do terceiro
– cedido pelos pais dela, se instalaram.
E qual não foi a encrenca que ambos — para si,
Para os pais dela, para os seus filhos que virão
E de tamanho desfortunio, incautos criaram!…
Agora, ele dorme até ao meio-dia.
Dor de cabeça lhe tira o sono da noite.
Amigos, dos bares de outrora, já não se encontram.
Restou a esperança de, rompendo a escuridão matinal,
Descer as escadas correndo, para — ao menos,
Garantir da forma possível aquele sorrir inicial!..
Ela é o esteio da casa e o sustento da vida real!
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